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Publicação da Obra: Literatura, Educação e Cultura - Cabo Verde e Brasil

 

Texto de Apresentação

 

Amália de Melo Lopes

Christina Bielinski Ramalho

 


Literatura, Educação e Cultura é um livro produzido sob os influxos da fraternidade. Dois países: Brasil e Cabo Verde, como resultado das comunicações apresentadas no I Seminário Literatura, Educação e Cultura entre Irmãos: Cabo Verde e Brasil. Duas realidades bastante díspares em termos geográficos e populacionais e, no entanto, muito semelhantes em muitos outros aspectos que vão além da história comum de colonização e perpassam temas como os enfrentamentos políticos e sociais em busca de uma sociedade mais justa; a afirmação da nacionalidade; a reflexão sobre o papel da arte e da literatura como meios de não só consolidar essa nacionalidade como inserir no mundo as realidades nelas e por elas representadas; traços identitários que aproximam conceitos como “cordialidade” e “morabeza”; lutas contra os determinismos da seca; valorização da educação como caminho para a superação de situações históricas marcadas por violência e de experiências trágicas ligadas à sociedade escravocrata que escreveu linhas amargas na formação social de ambos os países. 

 

Equilibrando recortes críticos voltados para aspectos linguísticos, literários, históricos e culturais dos dois países, o livro permite que os leitores e as leitoras, por si mesmos/as, percebam os pontos em que as congruências afirmam essa fraternidade e os outros, incongruentes, que, ao contrário de atenuar esses laços fraternos, fazem-se suportes mútuos para que aconteça a aprendizagem através da contemplação do outro. Em relação aos autores e às autoras brasileiros/as, cabe destacar o recorte sergipano e nordestino da contribuição, visto que o grupo reúne professores/as, doutorandos/as e mestrandos/as da Universidade Federal de Sergipe, e docentes de instituições de ensino básico de Sergipe, menor estado brasileiro. Ainda que um ou outro estudo apresentado saia das fronteiras de Sergipe e mesmo do nordeste brasileiro, temos, no conjunto, uma representação metonímica do Brasil e, ao mesmo tempo, um registo identitário bem específico, o que é normal, dada a dimensão continental do país e sua imensa diversidade. 

 

Reunimos, aqui, portanto, artigos e discursos, ordenados pelo critério da ordem alfabética do nomes, com o intuito de provocar a salutar “mistura” de contextos, pontos de vista e temáticas, para que, ao final da leitura, possam ser colhidos, no âmbito da literatura, da cultura e da educação, as vivências e os fatos que fazem de Cabo Verde e do Brasil os países que são e também os pontos em que “ser” é uma condição compartilhada pelo espelhamento, pelo desejo de aprender e pela simpatia mútua, que promete levar a ser cada vez mais estreita essa fraternidade. 

 

Apresentamos, brevemente, cada capítulo, de modo a orientar leitores e leitoras sobre os conteúdos de cada texto, destacando que, cada qual a seu modo, contempla a tríade “literatura, cultura e educação” que norteou a organização deste trabalho. 

 

“Entre sertões e representações: história, literatura e outras artes”, do Professor Doutor Antônio Fernando de Araújo Sá, Professor Titular do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe, nos apresenta uma reflexão sobre a ideia de “sertão” na cultura brasileira, que mapeia como essa ideia, ainda que partindo de um termo cuja origem remonta às crónicas dos primeiros tempos da colonização portuguesa no Brasil, ganhou sentidos plurais a partir de sua presença na literatura e na história brasileiras. Sá, com seu artigo, propõe um olhar que percebe no “sertão” uma forma própria de se pensar a nação, a partir de contextos específicos, que também envolvem política, memória e mesmo resistência a forças hegemónicas de opressão. 

 

Arminda Brito, Professora Auxiliar da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes da Universidade de Cabo Verde, em seu artigo, “Testemunho de um combatente de Pedro Martins. Entre o histórico, o testemunhal e o ficcional”, reflete sobre o conceito de “testemunho”, analisando o viés de contribuição desse tipo de literatura como fonte de construção histórica. Brito considera a importância da obra de Martins, dimensionando o contexto de abertura política na qual se insere sua primeira edição e o fato de, em primeira pessoa, com a voz de um ativismo partidário, a narrativa trazer à tona acontecimentos relacionados ao período entre 1970 e 1975, quando factos eivados de violência e subjugação humana impuseram formas também intensas de resistência. Uma década depois, a obra de Martins, além de oferecer um testemunho individualizado de tudo o que foi vivido, abre-se a outras narrativas e testemunhos, compondo uma memória coletiva, que ajudou e ajuda Cabo Verde a compreender o tão conturbado período de sua história. 

 

O músico, poeta e escritor, membro da Academia Cabo-verdiana de Letras, Carlos Alberto Barbosa, apresenta, em “O lugar da literatura no Cabo Verde contemporâneo – breves alusões”, um depoimento, em forma de discurso, no qual levanta uma série de questões sobre a atual situação da literatura nacional. O texto, de teor social e político, debate as relações entre a produção literária e artística cabo-verdianas e uma realidade contemporânea totalmente diferente, em que conjunturas mundiais, envolvendo injustiça e desigualdade social, violência e imposições cada vez maiores da lógica do mercado, promovem a dupla necessidade de uma nação pensar e problematizar suas próprias questões e, ao mesmo tempo, ocupar seu espaço no debate e nas representações artísticas que refletem o mundo de hoje. 

 

Mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Sergipe e atuando há muitos anos na Rede Estadual de Ensino no estado de Sergipe, o Professor Carlos Alexandre Nascimento Aragão, em seu artigo “O professor de língua portuguesa e as imagens de si: uma abordagem discursiva”, estabelece relações entre teoria e prática de ensino de língua portuguesa, colocando em pauta a atuação docente no espaço do ensino básico brasileiro, em especial no que se refere ao modo como, por meio da manutenção de práticas tradicionais de trabalho com a língua, em que se privilegia a Gramática Normativa, impede-se que estudantes brasileiros/as compreendam o caráter dinâmico, histórico e dialógico da língua. O objetivo de Aragão é proporcionar, por meio do seu trabalho, a oportunidade de uma reflexão docente individualizada sobre a imagem que cada profissional tem de si mesmo/a como professor de língua portuguesa. 

 

Cássio Augusto Nascimento Farias, mestrando de Estudos Literários no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Sergipe, e a Professora-Doutora Jeane de Cássia Nascimento Santos, sua orientadora, desenvolvem, em “A feira poética de Lívio Oliveira” um estudo crítico sobre o livro de poemas O teorema da feira (2012), Lívio Oliveira, escritor norte-rio-grandense contemporâneo. A abordagem permite que leitores e leitoras conheçam não só o estilo metafórico adotado pelo poeta no livro, em que a imagem da “feira” se multiplica, apresentando muitos dos traços culturais que caracterizam a região nordeste do Brasil, como a compreensão do fenómeno do hibridismo como um fio condutor de uma estética particular. 

 

A Professora Doutora Cleide Emília Faye Pedrosa, da Universidade Federal de Sergipe, e o Professor-Mestre João Paulo da Lima Cunha, seu orientando de Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Sergipe, oferecem, com seu artigo “Escritura em língua portuguesa: experiência dos alunos surdos do Curso de Letras Libras da Universidade Federal de Sergipe, Brasil”, uma visão da realidade brasileira no que se refere à presença do Curso de Letras Libras na UFS e às situações que têm sido estudadas em pesquisas realizadas nas áreas de Estudos Surdos, Estudos Críticos do Discurso e a Gramática Sistêmico Funcional. Pedrosa e Cunha discriminam as especificidades de cada área e apresentam os resultados de uma pesquisa recentemente desenvolvida por eles. Aproveitando a experiência vivida em Cabo Verde, o texto insere comentários sobre a realidade da educação para surdos no país. 

 

A escritora cabo-verdiana e membro da Academia Cabo-verdiana de Letras Dina Salústio, no discurso “Que literatura para o Cabo Verde contemporâneo? A liberdade do escritor”, contempla, de forma ampla, a experiência literária em Cabo Verde e no mundo, dando destaque à expressão literária e crítica de autoria feminina. Salústio também destaca a Claridade e sua importância na trajetória da literatura de Cabo Verde e tece um paralelo entre as questões abraçadas pela literatura ontem e hoje, demarcando o discurso literário como uma forma de se abrir espaço às lutas por uma sociedade mais justa e pela liberdade, sem, contudo, deixar de ser uma experiência que “faz bem” à humanidade. 

 

Escrito a dez mãos, o artigo “Representações indígenas e negras na literatura e no cinema brasileiros: provocações (im)pertinentes”, de autoria das Professoras-Doutoras Edinéia Tavares Lopes e Maria Batista Lima, da Universidade Federal de Sergipe; de Luciana Oliveira Vieira, Mestranda no Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Cinema e Narrativas Sociais, e Yasmin Lima de Jesus, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática, ambas da Universidade Federal de Sergipe; e a Professora Maria Camila Lima Brito de Jesus, que atua no Ensino Básico do Estado de Sergipe, fixa olhares críticos em produções literárias e filmográficas em que aparecem representadas e problematizadas questões relacionadas aos brasileiros e às brasileiras negros/as e indígenas. O objetivo é verificar as possíveis rupturas por meio da arte, com o pensamento colonialista, escravagista e imperial, e a possível consonância com o que têm feitos os movimentos negro e indígena no Brasil. 

 

Elvira Reis, Professora Auxiliar da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes da Universidade de Cabo Verde, apresenta, em “O mito da liberdade na literatura lusófona: um diálogo entre Timor, Angola, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde”, um artigo que inclui no perfil deste livro um olhar ainda mais amplo para a fraternidade, tendo como principal base teórica o pensamento de Skinner acerca da liberdade. Tomando como corpus literário as obras Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa; A Ilha das trevas, de José Rodrigues dos Santos; e O Itinerário de Pasárgada, de Osvaldo Alcântara, Reis confronta diversos aspectos presentes nas obras, com a finalidade de que modo a liberdade (ou sua ausência) é, respectivamente, retratada. 

 

Em “Para uma poética do corpo dançante na dança do grupo Raiz di Polon: reflexos na educação e na cultura”, o docente da Universidade de Cabo Verde Elter Carlos, Mestre em Filosofia da Educação e Doutorando em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Santiago de Compostela (USC), oferece-nos uma visão crítica que funde o olhar filosófico ao olhar poético, tomando como ponto de partida, ou como corpus, a expressividade do corpo dançante representado pelo grupo cabo- verdiano Raiz di Polon. Por meio da dança, aspectos como a transgressão às injunções de um sistema dominador e opressor e a capacidade do corpo de elaborar uma linguagem poética própria são colocados em pauta, assim como a questão da projeção da arte no espaço social, incidindo para a valorização da cultura e da educação. 

 

Éverton de Jesus Santos, mestre e doutorando em Letras, na área de Estudos Literários do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Sergipe, no artigo “Nordestinados, de Marcus Accioly: um glossário poético-regional”, tece reflexões sobre a representação do Nordeste brasileiro na obra épica do poeta pernambucano, traduzida em um repertório linguístico-simbólico diversificado, em que variados aspectos humanos, geográficos, manifestações folclóricas, fauna, flora, entre outros, são representados a partir da confluência épica entre mito e história. 

 

“Arte para vida: metalinguagem na poesia de Jeová Santana”, de Fabiana dos Santos, doutoranda em Estudos Literários do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Sergipe, parte da metalinguagem para abordar o processo criativo do poeta sergipano Jeová Santana, especialmente no livro Poemas passageiros (2011). Analisando os poemas “O Poeta”, “Quadras Desafinadas” e “O homem faz”, dos Santos demonstra como a metalinguagem se faz instrumento eficaz para o reconhecimento da transformação do real na experiência lírica. 

 

Ítalo de Melo Ramalho, advogado e mestrando do Programa de Pós- Graduação em Antropologia, da Universidade Federal de Sergipe, no artigo “Elomar Figueira Melo e Antônio Carlos Nóbrega: a peleja sonoro-poética do litoral ao sertão do nordeste brasileiro”, promove um “confronto” simbólico (uma “peleja” criativa, isenta de belicismo) entre duas expressões reconhecidas da música, da poesia e da dança nordestinas brasileiras: o baiano Elomar Figueira Melo e o pernambucano Antônio Carlos Nóbrega. Contrapondo a experiência interiorana de Elomar à litorânea de Nóbrega, estabelecendo um diálogo entre canções dos dois artistas e trazendo à discussão o conceito de “invenção do Nordeste” (Durval Muniz de Albuquerque Jr) e as tensões entre regionalismo e cosmopolitismo, Ramalho se debruça sobre a linguagem, os processos criativos e a consciência identitária que se recolhem dessas expressões representativas de um nordeste não inventado, mas inventivo. 

 

O escritor, Doutor em Antropologia e Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes da Universidade de Cabo Verde, Manuel Brito-Semedo, em “Gastronomia, música e dança no ciclo de vida do homem cabo-verdiano”, brinda os leitores e as leitoras com um retrato da multifacetada expressão cultural que se recolhe da confluência entre gastronomia, música e dança cabo-verdianas. Destacando os momentos ritualísticos de comemoração da vida e sacralização da morte; a força de determinados componentes da culinária do país; e os ritmos que embalam a plural musicalidade de seu povo, o antropólogo evidencia como essas formas de expressão e arte são fundamentais para se compreender a vida em Cabo Verde. 

 

O linguista Manuel Veiga, escritor, Professor Associado da Universidade de Cabo Verde e membro da Academia Cabo-verdiana de Letras, apresenta, no artigo “Desafios da literatura no Cabo Verde contemporâneo”, uma reflexão sobre os diversos ângulos a partir dos quais se pode contemplar a literatura nacional contemporânea. Problematizando a literatura como meio de contemplação crítica e revisionista do real; analisando o processo criativo envolvido na criação literária; abordando aspectos como as novas tecnologias e a internacionalização; além de apontar aspectos de sua própria criação romanesca; Veiga oferece aos leitores e leitoras conhecimentos fundamentais para se compreender não só os desafios da literatura cabo-verdiana como um todo, mas também os seus próprios, como romancista. 

 

A Professora Doutora Rafaela Mendes Mano Sanches, que realizou pesquisa de Pós-Doutorado (Bolsa Capes PNPD), junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Sergipe, centra sua reflexão crítica, em “Da margem da experiência histórica às páginas da ficção: o popular e o poeta melancólico em José de Alencar”, na obra do escritor cearense José de Alencar, um dos maiores nomes da literatura romântica no Brasil. Seu principal intuito é dar visibilidade à presença da cultura popular em duas obras do autor: As Minas de Prata (1865) e Alfarrábios: crônicas dos tempos coloniais (1872), verificando o modo como a cultura letrada e a cultura popular do período seiscentista são inter- relacionadas nas narrativas e em que medida se configura aí um processo de simbiose cultural. 

 

Os Professores Doutores em Letras, Antônio Ponciano Bezerra e Sandro Marcío Drumond Alves Marengo, docentes da Universidade Federal de Sergipe, e Marta Martins dos Santos, também da Universidade Federal de Sergipe, assinam juntos o artigo “Os contatos africanos no Projeto para a história do português brasileiro de Sergipe (PHPB-SE)”. No trabalho, apresentam os primeiros resultados do projeto, de dimensão nacional e interinstitucional, Para a História do Português Brasileiro (PHPB), no qual cabe à equipe de pesquisadores/as de Sergipe a constituição de um banco de dados diacrónico acerca de realidade linguística do português de Sergipe que envolve os últimos três séculos. Nesse artigo, em especial, Marengo, Bezerra e Santos dão destaque aos resultados parciais envolvendo um inventário com testamento deixado por um escravo alforriado natural da África. O estudo revela importantes e curiosos aspectos sobre a influência africana no português sergipano. 

 

 

 


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